Capítulo 3. Saudade, memórias

Capítulo 3. Saudade, memórias




Ficamos ali alguns minutos daquela manhã, conversando e comendo. Você sente a intensidade do olhar de Getō para você, e as nuances do jeito sexy dele te agitam internamente: hora é o olhar sensual com o sorriso meigo, outra hora é o olhar meigo com o sorriso sensual. ‘Você vai me enlouquecer, Sugutō..’, era o único pensamento que lhe ocorria.

Você permanece algum tempo sentada na cadeira, os braços apoiados no balcão da cozinha, uma das mãos apoiando seu próprio queixo enquanto observa Getō que, depois de recolher a louça usada, está de costas para você, em frente a pia, limpando tudo. Você observa o movimento dos braços dele, as linhas das costas se pronunciam sob a camisa a cada movimentação, o corpo tão alto e proeminente que seria impossível passar despercebido em meio às pessoas. Você suspira e brinca:


– Você é tão grande, Sugutō… o mundo é tão injusto para algumas pessoas… - sua fala é acompanhada por um aperto nos próprios lábios enquanto compara, descontente, as alturas de vocês dois. 


Getō levanta a cabeça subitamente, vira o rosto e um dos ombros para trás, e olha para você com ar divertido:


– Então você está com inveja? - ele ri ao dizer a última palavra. E continua: – O que faria sendo tão grande, Jundo?


– Ahh.. eu iria me impor mais... Quem sabe até te apertar melhor, porque teria mãos maiores, hein? - você ri e gesticula as mãos abrindo e fechando para Getō que te observava, agora com o corpo inteiro posicionado na sua direção.


– Você já se impõe muito bem, pequena.. - ele sorri divertido enquanto passeia o olhar do seu rosto para o seus seios e volta a encará-la: – E suas mãos estão cheias de habilidades maravilhosas.. - seu tom é ainda mais brincalhão ao completar a frase, usando as próprias mãos sujas de espuma de sabão para imitar o gesto que você fez instantes atrás.


Você ri colocando a mão sobre a boca, tentando disfarçar o constrangimento que a pegou de surpresa. Getō volta à posição anterior e dá atenção para a louça suja. Você lembra que precisa de um novo banho e uma nova calcinha após aquele sexo oral intenso, então desce da cadeira e caminha em direção ao banheiro. Lá realiza um novo ritual de cuidados, deixando de lavar apenas os cabelos. Agora veste uma roupa mais casual, desejando sair um pouco e respirar outros ares. 


– Sugutō?


– Hum? - ele levanta o rosto e te olha na entrada da cozinha. No intervalo em que esteve no banho, Getō já havia iniciado o preparo do que parecia ser um almoço.


– Por que não damos um passeio hoje? - você sugere, os dedos das duas mãos tocando uns nos outros, o olhar brilhando de empolgação.


– E onde quer ir tão bonita assim? - ele te olha avaliando-a da cabeça aos pés.


– Ah, pensei em ir novamente ao Parque Showa Kinen.. Tem muitas partes que ainda não conseguimos visitar desde que fomos a última vez lá..  - você comenta com semblante pensativo.


– Que tal voltarmos lá no outono, Jundo? Assim você verá uma paisagem diferente. - ele percebe seu ar de desânimo e continua: – Ei, eu sei que você acaba ficando na hibernação em algumas estações específicas como essa, então só quero que você aproveite algo diferente, está bem?.. E acho que você não irá se arrepender em esperar um pouco mais.


– Está bem. - você murmura e suspira, vencida pelos argumentos dele.


– Mas quero te levar em outro lugar. Tem uma comida deliciosa lá. O que me diz?


– Vamos! - ao ouvir a palavra comida seu ânimo voltou e você não disfarça o brilho nos olhos.


Getō sorri. Ele parece saber exatamente como elevar seu astral.


– Vou só terminar de preparar esta comida aqui e depois me trocar. - ele comenta enquanto lança uma piscada à você.


Você concorda com um aceno de cabeça e ao passar por ele na cozinha se aproxima rapidamente e estica o corpo, ficando na ponta dos pés, para roubar um selinho dele. Depois segue pra sala e pega o celular, senta no sofá com as pernas dobradas sobre o móvel e começa a interagir com o aparelho, respondendo mensagens de suas irmãs:



| Grupo Irmãs: |

| Bunriyūki: Ei Jundo! Vê se avisa quando acordar da hibernação! | (em 06/02/2008 às 21h13)

| Kibō: Farei comidas deliciosas quando você acordar Jundo! Então desde já, se cuide! | (em 06/02/2008 às 23h01)



Você sorri. Fazia algum tempo que você não reencontrava suas irmãs e, apesar de serem tão ligadas durante a infância, sua vinda para o Japão e a chegada da fase adulta fez com que o contato de vocês ficasse mais frequente por telefone do que presencialmente. Kibō já fazia um ano que você não via e soube por Yaga sensei que Bunriyūki esteve no país a trabalho, meses antes de você acordar e alguns dias antes de todo incidente associado ao mestre Tengen. Estar acordada e trocar mensagens com elas ao menos ter permitia matar as saudades.



| Grupo Irmãs: |

(em 11/05/2008 às 10h31) | Você: Bom dia aqui! Olha só quem acordou.. 😌 | 

| Você: Como vocês estão e por onde andam? |

| Você: Sinto saudades da minha chorona e minha gorducha favoritas! 😭 | 


| Bunriyūki: Quem é a chorona, sua sem vergonha? 😑 | (em 10/05/2008 às 10h37)

| Bunriyūki: Boa noite pra você. Aqui ainda é noite do dia 10. |

| Bunriyūki: Estou bem. Voltei pra casa faz 1 semana, estou aproveitando pra tirar uma folga e repor minha carga de melanina: o sol quase não aparecia nas últimas cidades que visitei. 😅 |

| Bunriyūki: Quando acordou? |


(em 11/05/2008 às 10h42) | Você: 😁❤️ |

| Você: Ah.. saudades de casa. Também tô precisando de uns dias queimando no sol de biquíni 🏖️ |

| Você: Acordei anteontem, mas tava muito sensível à luz, por isso não avisei antes. |


| Bunriyūki: Já ligou pra vovó? Apesar dela ter dito que sonhou com você, então é possível até que já saiba que acordou.. |

| Bunriyūki: Está sozinha? |


| Você: Ainda não, mas ligarei. Imagino que Yaga sensei já tenha entrado em contato com ela. |

| Você: Não. Ontem o pessoal do meu time veio aqui me visitar. | 

| Você: E Getō está aqui comigo desde então.. 🥰 |

| Você: Mas e a Kibō? Vai dar sinal de vida não? |


| Bunriyūki: Ah, claro! Agora tá explicado! |

| Bunriyūki: Você estava era ocupada transando horrores, né sua sem vergonha? 😏 |

| Bunriyūki: Nem espere pela Kibō. Do jeito que ela gosta de sair, se não estiver trabalhando, certeza que está passeando. Ou namorando alguém novo, quem sabe.. |

| Bunriyūki: Ela está no México desde abril. Lá já deve ser 19h49 agora. |


| Você: Deixa de ser pervertida! 😅 |

| Você: Não é como se a gente só fizesse esse tipo de coisa.. |

| Você: Humm. Quero bibelôs mexicanos, Kibō! 🤩 |

| Você: Yūki, soube que veio aqui logo após eu ter entrado na hibernação. | 

| Você: Outra hora vou te ligar pra saber o que fez nos últimos trabalhos. |


| Bunriyūki: Sei.. sei.. 😏 |

| Bunriyūki: Nem imagino o fogo que você não tava depois de 3 meses apagada, hein.. |

| Bunriyūki: Essa vida não dava pra mim. No seu lugar eu estaria subindo pelas paredes! 😆 |

| Bunriyūki: Sim,  tive aí, mas foi por curto período. Depois te conto os detalhes. |

| Bunriyūki: Tô indo dormir. Vai aproveitar o dia com seu namoradinho. |

| Bunriyūki: Saudades, comilona. 😘 |



Você ri envergonhada. Não cansava de se surpreender com a desinibição de Bunriyūki em escrever (ou dizer!) certas coisas. Falar de coisas sexuais para ela parecia tão natural quanto conversar sobre o clima com um completo estranho na rua. Momentos como esse lembram você do quão diferentes são, mesmo na condição de trigêmeas. Você lembra do ano em que se mudou para o Japão e da visita delas nas vésperas da sua primeira hibernação longe de casa e da família. A aliança de vocês cresceu para além da relação fraterna e isso vinha se mostrando um ponto positivo na convivência.

Olha novamente para a tela do celular consultando as horas. Sua distração no aparelho não te fez perceber antes que já não havia barulho na cozinha.


– Sugutō? - você chama levantando um pouco o volume da voz.


Não obtém resposta então resolve esperar. ‘Ele deve ter ido se trocar’, você pensa. Levanta do sofá e vai até o pequeno aparelho de som disposto na mesma mobília onde fica a televisão, e o liga na opção de cd. A canção LIFE de Yui começa a tocar, em volume baixo, e você volta a sentar no sofá, o corpo posicionado na direção das janelas da sala, de onde podia ver a luz do sol adentrar a casa e acompanhar o cenário pacato da rua. 

Você sorri com doçura, embalada pelo som da música. Getō tinha lhe presenteado com aquele cd de Yui no seu aniversário de dois anos atrás, quando descobriu que você estava gostando da cantora por causa de trilhas sonoras de animes. Você lembra o quão radiante ficou com o presente na ocasião, e de como isso rendeu mais assuntos para vocês conversarem e se aproximarem.


– … Jundo… - a voz de Getō soa baixa a lhe chamar.


– Oi. - você finalmente se dá conta e vira o rosto encontrando o semblante sorridente dele.


– Você parecia distraída, pequena. - ele percebe a música no ambiente e comenta: – Fico satisfeito em perceber que faz bom uso do presente que te dei.


– Sim.. Fiquei perdida em pensamentos ouvindo a música. - você sorri timidamente para ele, que tinha estendido a mão para acariciar seu rosto.


– Eu estou pronto. Vamos sair?


– Vamos sim. - você segura a mão dele, que a apoia ao se levantar.



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